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Do YouTube ao FACODI: como nasceu a Faculdade Comunitária Digital

Uma história pessoal de aprendizagem com vídeos, curadoria de conteúdo e a passagem de playlists para percursos educativos abertos.
7 de setembro de 2026 por
Do YouTube ao FACODI: como nasceu a Faculdade Comunitária Digital
Página inicial do FACODI com cursos publicados organizados como percursos de aprendizagem
O FACODI hoje: cursos publicados e organizados num percurso navegável.

Antes de ser uma plataforma, o FACODI começou como um hábito: aprender com o que já estava disponível na Internet e tentar dar-lhe uma ordem.

Aprender com a Internet

Durante muito tempo, uma parte importante da minha forma de estudar foi abrir o YouTube. Ao aprender programação, tecnologia e outros temas, encontrava vídeos, tutoriais, canais e playlists dispersos. Um vídeo levava a outro; um tutorial apresentava uma ideia; outro explicava um detalhe que faltava. Aos poucos, a sequência deixava de ser aleatória: uma playlist podia funcionar como um módulo e vários criadores, vistos com algum critério, aproximavam-se de uma disciplina.

Esta é uma lembrança pessoal, não uma tese sobre como toda a gente aprende. Mas trouxe uma pergunta persistente: se já existe tanto conhecimento aberto e competente, porque é tão difícil encontrar uma sequência que faça sentido para quem quer aprender?

O algoritmo ajuda a sugerir o próximo vídeo. Não garante, porém, um percurso pedagógico: não sabe necessariamente o que vem antes, o que convém aprofundar ou como uma explicação se relaciona com outra. O problema nunca foi apenas encontrar conteúdo; foi conseguir situá-lo.

Organizar o que já existe

A ideia que foi ganhando forma era menos ambiciosa e mais prática do que produzir uma nova biblioteca de aulas: descobrir, selecionar, organizar, contextualizar e relacionar bons recursos que já são públicos. Universidades, professores, programadores, investigadores e criadores publicam material útil todos os dias. Uma coleção de links é um começo; um percurso de aprendizagem precisa também de ordem, intenção e contexto.

Foi aí que organizar deixou de significar apenas guardar favoritos. Passou a significar perguntar para quem serve um recurso, que tema aborda, o que pode vir antes ou depois e em que conjunto faz mais sentido.

Experiências que tornaram a pergunta concreta

Há evidência pública de projetos que exploraram partes dessa mesma curiosidade. O Monynha Fun é descrito no seu repositório como uma plataforma de curadoria cultural de vídeo, dedicada a preservar e descobrir conteúdo do YouTube que os mecanismos de recomendação tendem a ocultar. O foco ali era valorizar julgamento humano, contexto e comunidade.

Esse trabalho está documentado hoje no Tube O2, projeto da Open 2 Technology que preserva referências anteriores a Monynha Fun e Monynha Softwares. O repositório público mostra recursos para descobrir vídeos, criar coleções e playlists, importar playlists públicas do YouTube e enriquecer metadados. Mais importante para esta história, mostra uma área FACODI onde playlists podem ser associadas a códigos de curso e de unidade curricular.

Interface pública do Tube O2, plataforma de curadoria de vídeos e playlists
Tube O2: uma etapa pública de curadoria, descoberta e organização de vídeos em playlists.

Não encontrei evidência pública suficiente para situar um projeto chamado Video Vault nesta genealogia, por isso ele não é usado como etapa da cronologia. A ligação entre os projetos acima é documentada por repositórios e interfaces públicas; a relação entre eles e o hábito pessoal de estudo é o contexto relatado por mim.

Da playlist ao currículo

A passagem decisiva foi perceber que a playlist não precisava de ser apenas uma lista de reprodução. Quando os vídeos têm uma ordem e um propósito, uma playlist pode servir de percurso. Várias playlists podem formar módulos; módulos podem aproximar-se de uma unidade curricular; e unidades relacionadas podem compor um percurso maior.

  1. Estudar com vídeos, tutoriais e playlists dispersos.
  2. Organizar conteúdo para o encontrar e compreender melhor.
  3. Experimentar curadoria, arquivo, comunidades e playlists colaborativas.
  4. Relacionar playlists com temas, cursos e unidades curriculares.
  5. Transformar esse raciocínio numa plataforma de aprendizagem aberta.

Não é uma equivalência automática. Uma playlist não substitui uma disciplina, e um conjunto de vídeos não substitui acompanhamento pedagógico. A utilidade está em tornar explícita uma relação que muitas pessoas já constroem informalmente quando aprendem online.

O nascimento do FACODI

É desse salto que surge o FACODI - Faculdade Comunitária Digital. A proposta é organizar currículos e percursos educativos e preencher essas estruturas com conteúdos abertos que já existem na Internet. O FACODI não se apresenta como universidade acreditada nem como entidade que atribui graus. É uma infraestrutura para tornar recursos abertos mais estruturados, navegáveis e reutilizáveis.

Na prática, isso significa poder relacionar uma intenção de aprendizagem com um curso, uma unidade, uma playlist, um vídeo ou um documento. O catálogo de cursos é a expressão pública atual dessa ideia; a página Sobre o FACODI dá o contexto do projeto.

Da prática pessoal ao contexto SEA-EU

Em 2026, a ideia foi levada ao programa SEA-EU Student-Led Projects, cuja chamada pública apoiou propostas colaborativas ligadas às dimensões social, verde e digital da vida universitária. Nos materiais de candidatura e seleção fornecidos pelo project leader, o projeto aparece como Digital Learning and Skills Recognition Platform for the SEA-EU Alliance / FACODI - Digital Community College, com Marcelo Souza Santos como project leader pela Universidade do Algarve, e como selecionado para financiamento.

Para ser rigoroso sobre a fonte: a chamada de 2026 é pública e verificável; nesta pesquisa não foi encontrada uma lista pública pesquisável de resultados que mencione o FACODI. A seleção e a designação formal acima são, portanto, apresentadas como registo dos materiais do projeto, e não como confirmação independente da página SEA-EU.

Uma ideia que também mudou de arquitetura

Enquanto a ideia se consolidava, a tecnologia também mudou. As experiências de curadoria do Tube O2 usaram Supabase para dados, autenticação e processamento de importações e enriquecimento. A implementação atual do FACODI assenta em Odoo 19 Community eLearning: cursos e conteúdos utilizam os modelos standard da plataforma, enquanto extensões próprias registam proveniência, descoberta de cursos, análise de conteúdo e relações revistas com referências curriculares.

Esta mudança não é uma tentativa de fixar uma arquitetura definitiva. É a forma atual de aproximar a operação editorial, o website e os cursos de um mesmo lugar, preservando a ideia central: o conhecimento aberto torna-se mais útil quando alguém consegue perceber como as suas partes se relacionam.

O que o FACODI quer tornar possível

O FACODI não quer ser apenas um site com cursos. O seu horizonte é uma infraestrutura comunitária que consiga relacionar currículos, unidades curriculares, competências, cursos, vídeos, playlists, documentos e recursos educativos abertos. A plataforma pode crescer como uma ajuda para descobrir o que estudar a seguir e quais materiais públicos já respondem a essa necessidade.

Esta história começou com uma prática simples: abrir o YouTube, aprender algo, guardar uma ligação e procurar a próxima peça. O FACODI é a tentativa de transformar essa prática dispersa num caminho que outras pessoas também possam percorrer, adaptar e melhorar.


Notas sobre as fontes

Este texto combina: relato pessoal do autor sobre a forma de aprender online; repositórios públicos de Marcelo Santos, incluindo Monynha Fun e Tube O2; documentação técnica pública do FACODI; a chamada SEA-EU Student-Led Projects 2026; e informação de candidatura/seleção disponibilizada pelo project leader. O perfil profissional do autor está em LinkedIn.

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